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	<title>Arquivo de Opinião - My Ginecologia</title>
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	<description>Plataforma multimédia dirigida à comunidade médica e outros profissionais de saúde dedicados à Ginecologia</description>
	<lastBuildDate>Thu, 30 Jul 2026 14:50:12 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivo de Opinião - My Ginecologia</title>
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		<title>Quando um problema da consulta se transforma num projeto tecnológico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 14:43:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Poderá a tecnologia acompanhar a saúde menstrual sem transformar dados íntimos num produto comercial? A propósito das limitações e riscos de privacidade observados na maioria das aplicações do mercado, o ginecologista-obstetra e especialista em Medicina da Reprodução Ricardo Santos (ULS Alto Ave) assina um artigo de opinião sobre o desenvolvimento da aplicação CycleTracker. O médico [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Poderá a tecnologia acompanhar a saúde menstrual sem transformar dados íntimos num produto comercial? A propósito das limitações e riscos de privacidade observados na maioria das aplicações do mercado, o ginecologista-obstetra e especialista em Medicina da Reprodução <strong>Ricardo Santos</strong> (ULS Alto Ave) assina um artigo de opinião sobre o desenvolvimento da aplicação CycleTracker. O médico e especialista em Informática Médica explica como concebeu uma ferramenta digital de registo menstrual focada exclusivamente na segurança dos dados da utilizadora, na utilidade para a consulta médica e no rigor clínico, livre de publicidade ou recolha de informação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou especialista em Medicina da Reprodução. O ciclo menstrual é algo que faz parte do meu quotidiano, e que valorizo muito, pela importância que tem no meu trabalho. Acresce que aplicações de acompanhamento do ciclo menstrual já fazem parte do quotidiano de muitas mulheres. Contudo, nem sempre foram concebidas com prioridades clínicas: podem apresentar previsões com uma segurança excessiva, incluir publicidade em momentos particularmente sensíveis ou recolher informação que ultrapassa largamente o necessário. Por isto, quis explorar uma alternativa: uma aplicação útil, clinicamente responsável e que não precisasse de transformar dados íntimos num produto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia para a CycleTracker nasceu, antes de tudo, da prática clínica. Em consulta, é frequente as doentes recorrerem ao telemóvel para tentar reconstruir a sua história menstrual: quando começou a última menstruação, qual tem sido a duração dos ciclos, se existe <em>spotting </em>recorrente, em que dias surgiram determinados sintomas ou quando foi realizado um teste de ovulação. Muitas já utilizam uma aplicação, mas a informação nem sempre é fácil de interpretar ou partilhar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já tive doentes que, de tanto rigor, tinham calendários menstruais complexos em folhas de excel (uma que me estou a lembrar era engenheira, e de um rigor com os registos que faria inveja a muitas aplicações dedicadas). Mas mais do que uma vez, tive de esperar que uma doente visse um anúncio antes que a aplicação instalada no seu dispositivo carregasse os seus ciclos, e, como apaixonado pela tecnologia que sou, sei que a esmagadora maioria das aplicações gratuitas vivem dos dados de quem as usa (não existem “refeições grátis”). Estes momentos tornaram mais evidente uma preocupação já antiga: não faltavam calendários menstruais, mas faltava uma ferramenta que eu pudesse recomendar sem reservas. Queria algo simples, sem publicidade e sem distrações, mas também sem previsões apresentadas como certezas ou mecanismos invisíveis de recolha de dados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo não foi, portanto, criar “mais uma aplicação”. Foi tentar responder a uma pergunta clínica e ética: como deve funcionar uma ferramenta de saúde menstrual quando o seu primeiro compromisso é com a utilizadora?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O projeto surgiu também de um percurso pessoal situado entre várias áreas. Sou ginecologista-obstetra, com subespecialidade em Medicina da Reprodução, mestre em Informática Médica e doutorado em Investigação Clínica e Serviços de Saúde. A atividade clínica permite-me identificar problemas concretos; a formação científica obriga-me a questionar a validade das soluções; e a experiência tecnológica dá-me a possibilidade de transformar algumas dessas ideias em ferramentas utilizáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comecei o desenvolvimento da CycleTracker nas minhas férias de 2025. A conceção clínica, a definição das funcionalidades e todo o desenvolvimento tecnológico foram realizados por mim, num processo muito iterativo, com auxílio de várias ferramentas de programação e inteligência artificial. Estas ferramentas libertaram o lado da execução, colocando enfâse nas ideias. Se uma ideia é boa, pode ser bem aplicada, em tempo real. Criar, testar, criticar, resolver, criar, testar&#8230; num processo circular extremamente rápido e satisfatório.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das principais aprendizagens nesta área, e já de há vários anos (2017), quando criei a minha primeira aplicação (na altura publicada apenas para Android), foi perceber que a parte mais difícil raramente é desenhar um calendário ou criar um botão. As decisões verdadeiramente complexas estão por detrás da interface: o que deve ser considerado o início de um ciclo? Como interpretar ciclos irregulares? Como lidar com valores extremos sem apagar informação relevante? Como distinguir uma estimativa baseada em vários ciclos de outra baseada apenas numa média populacional? Estas são simultaneamente perguntas clínicas e tecnológicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A aplicação foi construída para iOS e Android a partir de uma base comum (<em>Flutter</em>). Permite registar menstruação, <em>spotting</em>, sintomas, relações sexuais, temperatura basal e testes de ovulação, analisar padrões e produzir estimativas adaptadas ao histórico individual. O desenvolvimento incluiu testes com diferentes tipos de ciclo, validação de importações e exportações e atenção a situações menos “arrumadas” do que os exemplos ideais habitualmente apresentados num calendário. É um trabalho em curso, que vou corrigindo, acrescentando funcionalidades e melhorias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os dados de saúde reprodutiva estão entre os dados mais íntimos que uma pessoa pode registar. Podem incluir informação sobre menstruação, atividade sexual, tentativas de gravidez, sintomas, testes de ovulação ou suspeitas de doença. Por isso, a privacidade da CycleTracker foi definida desde o início como uma característica estrutural. A aplicação não exige conta ou registo. Não possui uma base de dados central nem envia os registos para servidores próprios. Os dados permanecem no dispositivo e a aplicação pode funcionar <em>offline</em>. Não inclui publicidade, identificadores publicitários, serviços de análise de comportamento ou mecanismos de rastreamento de terceiros. O acesso pode ser protegido através de autenticação biométrica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A integração com a Apple Health ou o Health Connect é opcional, requer uma ação explícita da utilizadora e pode ser revogada. Não deve existir uma partilha automática ou pouco compreensível de informação tão sensível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, esta opção tem custos. Sem telemetria, não consigo observar à distância como cada pessoa utiliza a aplicação ou em que ponto abandona uma determinada tarefa. Sem uma conta central e sincronização automática na nuvem, as cópias de segurança e a transferência de dados têm de ser escolhas mais conscientes. A evolução da aplicação depende mais do contacto voluntário das utilizadoras e dos profissionais. Estas limitações são coerentes com o propósito do projeto. Aquilo que não é recolhido não pode ser vendido, explorado para publicidade ou exposto numa falha de um servidor. Isto não elimina todos os riscos digitais, mas reduz significativamente a superfície de exposição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ausência de publicidade pode parecer apenas uma opção estética. Na realidade, é também uma escolha sobre o modelo de relação entre a aplicação e a utilizadora. Uma ferramenta de saúde não deve ter interesse em prolongar artificialmente o tempo de utilização, aumentar o número de notificações ou transformar sintomas e receios em oportunidades de envolvimento comercial. O objetivo não é manter a mulher dentro da aplicação. É permitir-lhe registar o que precisa, compreender a informação e continuar o seu dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A CycleTracker é uma ferramenta de registo e apoio à compreensão do ciclo. Não substitui uma consulta, não estabelece diagnósticos e as estimativas de fertilidade não devem ser utilizadas isoladamente como método contracetivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma doente consegue apresentar uma sequência organizada dos ciclos, sintomas, episódios de <em>spotting </em>ou resultados de testes de ovulação, a conversa torna-se mais concreta. Reduz-se a dependência da memória e torna-se mais fácil identificar padrões, formular perguntas e decidir se é necessária investigação adicional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A aplicação permite também exportar informação para cópia de segurança ou partilha deliberada. O objetivo não é substituir a história clínica, mas facilitar a passagem entre o registo quotidiano da mulher e uma conversa clínica contextualizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde a publicação inicial (abril de 2026), cerca de 130 instalações foram realizadas. Devemos ter em conta que esta é uma aplicação que só corre boca-a-boca (não está nunca nos lugares cimeiros em pesquisas, dado o seu curto histórico).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma aplicação clinicamente responsável deve reconhecer quando não possui dados suficientes, explicar a incerteza das suas estimativas, proteger informação sensível e encaminhar para avaliação clínica quando apropriado. Deve ser tecnicamente competente, mas também discreta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gostaria que o sucesso deste projeto não fosse medido apenas pelo número de instalações ou pelo tempo passado na aplicação. Para mim, os indicadores mais relevantes são outros: se ajuda uma mulher a compreender melhor o seu ciclo, a engravidar com mais facilidade, se lhe dá maior controlo sobre os próprios dados e se permite que uma consulta comece com informação mais clara.</p>
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		<title>Ameaça invisível: estudo alerta para o avanço das resistências antifúngicas e falhas na vigilância nacional</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jul 2026 11:25:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As infeções fúngicas continuam a causar cerca de 3,8 milhões de mortes anuais a nível global. Num artigo de opinião assinado pela investigadora Raquel Sabino, do Research Institute for Medicines da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, traça o retrato detalhado desta realidade no nosso país, tendo por base as conclusões do trabalho “Candida and candidiasis in Portugal: [&#8230;]</p>
<p>O conteúdo <a href="https://myginecologia.pt/opiniao/ameaca-invisivel-estudo-alerta-para-o-avanco-das-resistencias-antifungicas-e-falhas-na-vigilancia-nacional/">Ameaça invisível: estudo alerta para o avanço das resistências antifúngicas e falhas na vigilância nacional</a> aparece primeiro em <a href="https://myginecologia.pt">My Ginecologia</a>.</p>
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<p class="wp-block-paragraph">As infeções fúngicas continuam a causar cerca de 3,8 milhões de mortes anuais a nível global. Num artigo de opinião assinado pela investigadora <strong>Raquel Sabino, </strong>do <em>Research Institute for Medicines</em> da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, traça o retrato detalhado desta realidade no nosso país, tendo por base as conclusões do trabalho “Candida and candidiasis in Portugal: Past situation, current trends and future challenges”. A autora alerta para uma mudança preocupante no perfil epidemiológico nacional: embora a <em>Candida albicans</em> continue a ser o agente mais isolado, assiste-se a uma emergência nítida de espécies não-albicans multirresistentes e com elevada capacidade de contágio hospitalar, como a <em>Candida parapsilosis</em> e a temida <em>Candidozyma auris</em> (ou <em>Candida auris</em>), cujo primeiro caso em Portugal foi isolado em 2023. Cruzando dados recentes de estudos multicêntricos e análises do Instituto Ricardo Jorge (INSA), a especialista expõe as implicações clínicas diretas do consumo desregulado de antifúngicos de venda livre para infeções superficiais (como a candidíase vulvovaginal e onicomicoses) e aponta as principais lacunas do sistema nacional. Em nome do avanço científico e da segurança dos doentes, Raquel Sabino defende a criação urgente de uma rede de notificação obrigatória e de vigilância sistemática, alinhada com as diretrizes globais da Organização Mundial da Saúde (OMS).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A problemática das infeções fúngicas</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">As infeções fúngicas representam um importante problema de Saúde Pública, embora continuem a ser amplamente subestimadas.&nbsp; Com uma carga global significativa, elevada mortalidade e crescente resistência aos antifúngicos, estas infeções devem ser reconhecidas como uma prioridade, quer a nível nacional quer global.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De facto, no seu contexto mais amplo, estima-se em termos globais que cerca de 6,5 milhões de pessoas desenvolvam anualmente infeções desta etiologia, resultando em aproximadamente 3,8 milhões de mortes por ano, das quais cerca de 2,5 milhões são diretamente atribuíveis à infeção fúngica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar destes números, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que existe uma profunda lacuna de dados, resultante da ausência, em muitos países, de diagnóstico eficiente e de sistemas de vigilância, acompanhados pela subnotificação destas infeções. Esta invisibilidade epidemiológica é um dos principais obstáculos à definição de políticas eficazes para mitigação destas infeções.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Infeções fúngicas causadas por </strong><strong><em>Candida</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">As infeções por <em>Candida</em> são atualmente reconhecidas como uma das principais causas de infeção fúngica em humanos, abrangendo desde formas superficiais até infeções invasivas potencialmente fatais. A candidemia, em particular, constitui uma das infeções nosocomiais mais graves, associada a elevada morbilidade, mortalidade e custos hospitalares significativos.&nbsp;As infeções sistémicas causadas por espécies do género <em>Candida</em> têm aumentado nas últimas décadas, principalmente devido ao aumento da esperança média de vida, a expansão do uso de dispositivos invasivos (utilização de cateteres, ventilação mecânica, alimentação parentérica), a multiplicação de terapias imunossupressoras e o crescimento das populações vulneráveis.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estima-se, assim, que cerca de 1,5 milhões de casos de candidemia e candidíase invasiva ocorram anualmente, resultando em aproximadamente 995 mil mortes. A realidade portuguesa reflete estas tendências globais, mas com especificidades que importa analisar criticamente. Estimativas epidemiológicas realizadas em 2017 indicam uma incidência de candidemia de cerca de 2,19 casos por 100 000 habitantes, correspondente a aproximadamente 231 casos anuais. Ainda que estes valores possam parecer relativamente baixos, devem ser interpretados à luz de dois fatores críticos: subnotificação e ausência de sistemas de vigilância sistemáticos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além da avaliação dos números associados a este microorganismo, a evolução do perfil epidemiológico de <em>Candida</em> é de extrema relevância. Embora <em>Candida albicans</em> continue a ser a espécie mais frequentemente isolada em Portugal, tal como os outros países, tem-se assistido a uma mudança progressiva do domínio de <em>C. albicans</em> para um cenário mais diversificado, com aumento significativo do número de infeções causadas por espécies não-<em>albicans</em>, como <em>Candida parapsilosis</em> e <em>Nakaseomyces glabratus</em> (anteriormente designada <em>Candida glabrata</em>).&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>C. parapsilosis, </em>classificada pela OMS como fungo de prioridade elevada, representa atualmente cerca de 20–25% dos isolados em hemoculturas e apresenta uma prevalência particularmente elevada em regiões como o Sul da Europa (incluindo Portugal, Espanha, Grécia, Itália e Turquia), América Latina, partes da Ásia e Médio Oriente. Já <em>N. glabratus</em> é, a seguir a <em>C. albicans</em>, a espécie de <em>Candida</em> mais frequentemente isolada no Norte da Europa e América do Norte. Estas mudanças epidemiológicas têm implicações clínicas diretas. <em>C. parapsilosis</em>, frequentemente associada a infeções relacionadas com dispositivos médicos, apresenta elevada capacidade de formação de biofilmes que favorecem a sua persistência e transmissão hospitalar e começa já a apresentar resistências adquiridas aos antifúngicos, nomeadamente ao fluconazol. Já <em>N. glabratus</em> caracteriza-se por uma menor suscetibilidade intrínseca ao fluconazol. Estas características dificultam as abordagens terapêuticas convencionais em ambos os casos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais preocupante ainda é a emergência de espécies multirresistentes, como <em>Candidozyma auris </em>(anteriormente designada por <em>Candida auris</em>). Este microrganismo, já classificado como ameaça global, apresenta frequentemente resistência intrínseca a múltiplas classes de antifúngicos e capacidade de causar surtos hospitalares. Em alguns casos, os isolados mostraram resistência simultânea a fluconazol, anfotericina B e equinocandinas, reduzindo drasticamente as opções terapêuticas. Classificada pela OMS como fungo de prioridade crítica, <em>C. auris</em> apresenta taxas de mortalidade que podem atingir 30–60% em candidemia. Desde a sua identificação, disseminou-se rapidamente, com mais de 84 000 casos reportados em 82 países até 2025. Na Europa, a situação também é preocupante: mais de 4 000 casos foram reportados entre 2013 e 2023. O European Center for Disease Control (ECDC) sublinha que estes números representam apenas uma fração do problema real, dada a ausência de vigilância sistemática em muitos contextos. Em Portugal, foram reportados, até ao momento, quatro casos ao ECDC. A vigilância realizada em unidades de cuidados intensivos (UCI) de dois hospitais portugueses da região de Lisboa e Vale do Tejo entre 2020 e 2022 não detetou a presença de <em>C. auris</em>. Em 2023, foi reportado o primeiro caso de <em>C. auris</em> isolada em Portugal. O doente tinha sido transferido de Angola para uma UCI de um hospital de Lisboa para realização de um transplante hepático, após uma infeção por SARS-CoV-2. Neste caso, não foi possível determinar se <em>C. auris</em> constituía o agente etiológico da infeção ou se correspondia apenas a colonização. No mesmo ano, num hospital de referência do norte de Portugal, foram obtidos oito isolados de <em>C. auris</em> epidemiologicamente relacionados, provenientes de doentes colonizados e infetados, sugerindo um potencial risco para a saúde pública, em consonância com a tendência observada noutros países da União Europeia. Tal como nos restantes países europeus, a deteção e a caracterização de <em>C. auris</em> não é realizada de forma prospetiva na maior parte dos casos, o que contribui para uma subdeteção e subnotificação. Na ausência de um sistema de vigilância implementado, a verdadeira incidência da infeção nos diferentes contextos assistenciais permanece desconhecida. Além disso, os dados nacionais relativos à presença ambiental de <em>C. auris</em> em ambiente hospitalar e noutros são ainda escassos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a candidemia representa a face mais dramática do problema, as infeções superficiais constituem a sua dimensão mais ampla e frequentemente negligenciada. A nível global, estima-se que cerca de 75% das mulheres terão pelo menos um episódio de candidíase vulvovaginal ao longo da vida, e que 138 milhões sofram de formas recorrentes anualmente. Em Portugal, a candidíase vulvovaginal apresenta prevalências significativas, podendo atingir cerca de 20,5% nas mulheres sintomáticas. Num estudo publicado recentemente pelo Instituto Ricardo Jorge (INSA), analisaram-se, no período compreendido entre 2019 e 2025, 582 isolados de <em>Candida</em> provenientes de exsudados vaginais.&nbsp; Em 86,9% dos casos foi isolada <em>C. albicans</em>, seguida de <em>C. parapsilosis</em> (4,4%), <em>N. glabratus</em> (3.7%), <em>Clavispora</em> <em>lusitaneae</em> (anteriormente designada por <em>Candida lusitaneae</em>) (1,2%), e <em>Meyerozyma guilliermondii</em> (anteriormente designada por <em>Candida guilliermondii</em>) (0,8%). Relativamente às onicomicoses causadas por <em>Candida</em>, e de acordo com um estudo multicêntrico realizado pela Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia, abrangendo o período de 2014 a 2016, dos 2375 agentes fúngicos isolados, 13% eram leveduras, sendo <em>C. albicans</em> e <em>C. parapsilosis</em> as espécies mais frequentemente isoladas, com frequências de 38,5% e 22%, respetivamente. Já no estudo publicado recente pelo INSA, do total de 409 isolados de <em>Candida</em> provenientes de unhas, 59,4% foram identificadas como <em>C. parapsiloisis</em>, 11,0% como <em>C. albicans</em> e 9.9% como <em>M. guilliermondii</em>. Foram ainda isoladas, com menor frequência, outras espécies de <em>Candida</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resistência aos antifúngicos em </strong><strong><em>Candida</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">No que respeita à problemática das resistências aos antifúngicos, para além do aumento progressivo da prevalência de espécies não-<em>albicans</em> (algumas com suscetibilidade reduzida ou resistências intrínsecas, por vezes a mais de uma classe de antifúngico, como já discutido anteriormente), têm-se também verificado variações geográficas importantes não só na distribuição de algumas espécies, mas também na frequência da resistência aos antifúngicos, como se verifica por exemplo em <em>C. parapsilosis</em>. De facto, desde cerca de 2018, múltiplos estudos internacionais têm descrito surtos hospitalares causados por estirpes de <em>C. parapsilosis </em>resistentes ao fluconazol. Estes surtos estão frequentemente associados à transmissão clonal do agente e persistência prolongada dos doentes em ambientes hospitalares, mesmo sob medidas rigorosas de controlo de infeção. Nos estudos apresentados, a frequência de resistência ao fluconazol é variável, mas atinge valores muito elevados (&gt;60%) em Espanha e na Turquia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Portugal, embora a frequência de resistência ao fluconazol em <em>C. parapsilosis </em>ainda seja moderada, os dados mais recentes evidenciam uma clara emergência dessa resistência. Um estudo baseado na análise de isolados recolhidos entre 2003–2007 e entre 2017–2024, demonstrou uma mudança temporal marcada pela ausência de resistência nos isolados mais antigos (2003-2007), mas observou-se uma emergência recente de resistência com uma frequência de ~8,5% (2017–2024), estando esta resistência associada à presença de mutações Y132F e R398I no gene ERG11.&nbsp; Foram ainda detetadas alterações adicionais em genes associados a bombas de efluxo (MDR1, CDR1), sugerindo mecanismos combinados de resistência. A resistência ao fluconazol em <em>C. parapsilosis</em> constitui atualmente um desafio emergente de saúde pública, com impacto clínico significativo e limitação das opções terapêuticas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra preocupação associada à emergência de resistências em <em>Candida</em> prende-se como facto de alguns dos antifúngicos utilizados no tratamento das infeções superficiais por causadas por <em>Candida</em> não requerem prescrição médica, nem avaliação clínica, facilitando o acesso aos mesmos e promovendo a sua utilização autónoma. Consequentemente, a sua utilização potencialmente inadequada pode contribuir para o aumento da pressão seletiva sobre fungos do género <em>Candida</em> e aumento das resistências antifúngicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Considerações pessoais e perspetivas futuras</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas as questões apresentadas até este momento mostram a pertinência da realização de estudos nesta temática. Em Portugal, para além de estudos clínicos, estão a ser desenvolvidas várias linhas de investigação quer em biologia fundamental quer em inovação e investigação aplicada. Estas áreas de desenvolvimento incluem a análise da estrutura dos biofilmes, estudos genómicos, identificação de novos fatores de virulência, mecanismos de patogénese, desenvolvimento e avaliação de compostos com atividade antifúngica e novas estratégias terapêuticas. Este crescente envolvimento da comunidade científica portuguesa reflete a importância de <em>Candida</em> como agente patogénico e o compromisso em reduzir a morbilidade e mortalidade associadas às infeções por este fungo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar destes avanços, Portugal continua a apresentar limitações na disponibilidade de dados nacionais sobre a incidência das candidíases, a distribuição das espécies e os perfis de resistência antifúngica. A ausência de notificação obrigatória das infeções fúngicas e a falta de estudos de abrangência nacional dificulta uma caracterização epidemiológica detalhada. Adicionalmente a estas necessidades, a implementação de métodos de diagnóstico rápido e identificação molecular, a utilização sistemática de dados locais na decisão terapêutica e a integração de abordagens interdisciplinares no contexto “One Health” são essenciais para mitigar a elevada prevalência destas infeções, especialmente num contexto de mudanças demográficas e das práticas de cuidados de saúde. Estas medidas estão alinhadas com recomendações internacionais e nacionais, nomeadamente as apontadas pelo plano estratégico (<em>Blueprint</em>) da OMS e pela Associação Portuguesa de Micologia Médica, que enfatizam a necessidade de investimento em diagnóstico, investigação e sistemas de vigilância para conter esta ameaça emergente.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências bibliográficas</strong>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Denning DW. Global incidence and mortality of severe fungal disease. Lancet Infect Dis. 2024;24:e428–38,http://dx.doi.org/10.1016/S1473-3099(23)00692-8.16&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escribano P, Guinea J. Fluconazole-resistant Candida parapsilosis: anew emerging threat in the fungi arena. Front Fungal Biol. 2022;3,http://dx.doi.org/10.3389/ffunb.2022.1010782, 1010782.17.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">European Centre for Disease Prevention and Control. Survey on the epidemiological situation, laboratory capacity and preparedness for Candidozyma (Candida)auris, 2024. ECDC; 2025.18</p>



<p class="wp-block-paragraph">Henriques J, Mixão V, Cabrita J, Duarte TI, Sequeira T, Cardoso S, et al. Candidaauris in intensive care setting: the first case reported in Portugal. J Fungi (Basel).2023;9:837, <a href="http://dx.doi.org/10.3390/jof9080837.25">http://dx.doi.org/10.3390/jof9080837.25</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Miranda IM, Gonc¸ alves MFM, Pinheiro D, Hilário S, Paiva JA, Guimarães JT, et al. First report of Candida auris candidemia in Portugal: genomic charac-terisation and antifungal resistance-associated genes analysis. J Fungi (Basel).2025;11:716, <a href="http://dx.doi.org/10.3390/jof11100716">http://dx.doi.org/10.3390/jof11100716</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Papuc AM, Veríssimo C, Simões H, Toscano C, Gomes JP, Mixão V,et al. Phenotypic and genomic characterization of azole resistancein Portuguese Candida parapsilosis isolates. Front Fungal Biol. 2025;6,http://dx.doi.org/10.3389/ffunb.2025.1713961, 1713961.34</p>



<p class="wp-block-paragraph">Papuc AM, Pimenta M, Simões H, Verissímo C, Sabino R, Gargaté MJ. Infeções fúngicas: estudo retrospetivo sobre casos de infeções e colonização por leveduras diagnosticados no INSA entre 2019 e 2025. Boletim Observações. Junho 2026</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pereira MIR [Tese de mestrado] A prevalência de Candida spp no Centro Hospitalarda Cova da Beira; 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rato M, Costin A, Furtado C, Sousa C, Toscano C, Veríssimo C.Epidemiology of superficial fungal infections in Portugal: 3-year review (2014–2016). J Port Soc Dermatol Venereol. 2018;76:269–78,http://dx.doi.org/10.29021/spdv.76.3.910.42</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabino R, Antunes F, Araujo R, Bezerra AR, Brandão J, Carneiro C, et al. Addressing critical fungal pathogens under a One Health perspective: key insights fromthe Portuguese Association of Medical Mycology. Mycopathologia. 2025;190:73,http://dx.doi.org/10.1007/s11046-025-00981-3.44</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabino R, Verissímo C, Brandão J, Martins C, Alves D, Pais C, et al. Serious fungal infections in Portugal. Eur J Clin Microbiol Infect Dis. 2017;36:1345–52,http://dx.doi.org/10.1007/s10096-017-2930-y&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">World Health Organization. WHO fungal priority pathogens list to guide research, development and public health action. Geneva: World Health Organization; 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">World Health Organization. Blueprint for strengthening responses to fungal disease and antifungal resistance: implementation guidance. Geneva: World Health Organization; 2026. ISBN: 978-92-4-012252-9.</p>
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		<title>Reprodutibilidade dos critérios de consenso de Amesterdão para má perfusão vascular materna: Porque é importante?</title>
		<link>https://myginecologia.pt/opiniao/reprodutibilidade-dos-criterios-de-consenso-de-amesterdao-para-ma-perfusao-vascular-materna-porque-e-importante/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rita Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 May 2026 15:55:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A classificação das lesões placentárias é um pilar da patologia perinatal, mas o seu impacto clínico é frequentemente limitado pela variabilidade na sua interpretação, o que diminui o valor do diagnóstico perante complicações obstétricas graves como a restrição do crescimento fetal, a pré-eclâmpsia e a morte fetal. Neste artigo de opinião, Rosete Nogueira, da Universidade [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">A classificação das lesões placentárias é um pilar da patologia perinatal, mas o seu impacto clínico é frequentemente limitado pela variabilidade na sua interpretação, o que diminui o valor do diagnóstico perante complicações obstétricas graves como a restrição do crescimento fetal, a pré-eclâmpsia e a morte fetal. Neste artigo de opinião, <strong>Rosete Nogueira</strong>, da Universidade do Minho, aborda o desafio persistente de traduzir a histopatologia em informação fiável e acionável, alertando para a necessidade de uma mudança cultural na especialidade. Ao analisar os critérios de consenso de Amesterdão para a má perfusão vascular materna (MVM), defende que o diagnóstico adequado exige mais do que definições teóricas no papel.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A classificação das lesões placentárias tem sido, desde há muito, um pilar da patologia perinatal, no entanto, a variabilidade na interpretação limita frequentemente o seu impacto clínico. Os critérios de consenso de Amesterdão para a má perfusão vascular materna (MVM) foram desenvolvidos para abordar esta questão, padronizando as definições e os limiares de diagnóstico. A avaliação multicêntrica da sua reprodutibilidade representa um passo oportuno e necessário para compreender se esta estrutura cumpre realmente a sua promessa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na sua essência, a motivação por detrás deste trabalho reside num desafio persistente: traduzir a histopatologia placentária em informação fiável e acionável. A MVM está associada a complicações obstétricas graves, incluindo restrição do crescimento fetal, pré-eclâmpsia e morte fetal. No entanto, se diferentes patologistas chegarem a conclusões diferentes ao examinar a mesma amostra, o valor destas associações diminui. A reprodutibilidade, portanto, não é um pormenor técnico — é a base sobre a qual se constrói a relevância clínica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O desenho multicêntrico do estudo é um dos seus maiores pontos fortes. Ao envolver patologistas perinatais de diversas instituições, capta a diversidade da prática de diagnóstico no mundo real. Isto é crucial, uma vez que os critérios de consenso só são úteis se forem eficazes fora de ambientes altamente controlados ou especializados. O aspeto colaborativo também reflete uma mudança cultural mais ampla na patologia: da perícia individual para a padronização coletiva e estruturas partilhadas.<br>Metodologicamente, a avaliação da reprodutibilidade depende geralmente da concordância interobservador, frequentemente quantificada através de medidas estatísticas como o coeficiente kappa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora estas métricas forneçam uma forma estruturada de avaliar a consistência, também destacam a complexidade inerente à patologia placentária. A MVM placentária associa um espetro de lesões, cuja identificação pode depender de subtis pistas morfológicas. O estudo levanta implicitamente uma questão importante: até que ponto mesmo critérios bem definidos podem superar os elementos subjetivos da interpretação histopatológica?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os resultados destas avaliações raramente são binários. Algumas características da MVM (modelação do valor acrescentado) tendem a apresentar uma forte concordância, particularmente aquelas com definições claras e bem delimitadas. Outras, especialmente as que envolvem gradações ou padrões sobrepostos, tendem a exibir menor reprodutibilidade. Esta variabilidade não representa necessariamente uma falha dos critérios de Amesterdão; pelo contrário, destaca áreas onde o refinamento, o esclarecimento ou a formação adicional podem ser necessários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do ponto de vista prático, as implicações são significativas. A elevada reprodutibilidade apoia a integração da avaliação da MVM nos relatórios de rotina e fortalece o seu papel na tomada de decisões clínicas e na investigação. Por outro lado, a baixa concordância indica cautela, pois são caraterísticas que podem exigir definições mais precisas, orientações ilustrativas ou até uma reavaliação do seu peso diagnóstico. Para os clínicos, compreender quais os aspetos mais robustos da MVM — e quais os menos robustos — é essencial na interpretação dos relatórios anatomopatológicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além da aplicação clínica imediata, o estudo contribui para uma discussão mais ampla sobre a padronização de critérios em patologia. À medida que a medicina enfatiza cada vez mais a prática baseada na evidência e a comparabilidade dos dados entre centros, os critérios de diagnóstico reprodutíveis tornam-se indispensáveis. Neste sentido, a avaliação dos critérios de consenso de Amesterdão não se limita à MVM; mas o modelo de abordagem da reprodutibilidade de critérios de consenso permite avaliar criticamente e melhorar as suas próprias ferramentas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em conclusão, a avaliação multicêntrica da reprodutibilidade de critérios é tanto um exercício de validação como um guia para melhorias. Reforça a importância da colaboração, destaca os pontos fortes e as limitações dos critérios atuais e, em última análise, contribui para o objetivo de tornar a patologia placentária mais consistente, fiável e clinicamente significativa.</p>
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		<title>Cancro do ovário: a urgência de uma agenda pública mais ambiciosa</title>
		<link>https://myginecologia.pt/opiniao/cancro-do-ovario-a-urgencia-de-uma-agenda-publica-mais-ambiciosa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Apr 2026 10:00:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A propósito do Dia Mundial do Cancro do Ovário, que se assinala a 8 de maio, Mónica Pires, presidente da Secção de Ginecologia Oncológica da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG), analisa os desafios críticos na gestão desta patologia em Portugal. Num artigo de opinião focado na organização dos cuidados, a especialista defende que o sucesso [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A propósito do Dia Mundial do Cancro do Ovário, que se assinala a 8 de maio, <strong>Mónica Pires</strong>, presidente da Secção de Ginecologia Oncológica da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG), analisa os desafios críticos na gestão desta patologia em Portugal. Num artigo de opinião focado na organização dos cuidados, a especialista defende que o sucesso clínico depende de uma tríade fundamental: referenciação atempada, rigor no diagnóstico e acesso a terapêuticas diferenciadas. O texto propõe uma reflexão sobre como converter as recomendações técnicas em resultados concretos, garantindo que a inovação científica se traduz numa melhoria real da sobrevivência e qualidade de vida das doentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A saúde, além do seu valor intrínseco e individual, é determinante na prosperidade económica e social de uma população, influenciando a oferta de mão-de-obra, a produtividade e as despesas públicas.&nbsp;Os cuidados de saúde dirigidos à mulher refletem-se, de forma determinante, nos níveis globais de qualidade em saúde em Portugal. Tal deve-se, não apenas ao facto de as mulheres constituírem o grupo maioritário da população portuguesa, mas também porque, em praticamente todas as áreas dos cuidados de saúde — cuidadores, auxiliares de ação médica, enfermeiros, psicólogos, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, farmacêuticos, médicos e tantas outras profissões — os profissionais são maioritariamente mulheres. Estas profissionais, essenciais para a qualidade, sustentabilidade e resiliência do sistema de saúde, são simultaneamente fornecedoras e utilizadoras de cuidados de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acresce que, na pirâmide etária da população portuguesa, a presença feminina assume particular destaque nos grupos etários mais avançados, espelhando a sua maior longevidade e impondo a consideração das necessidades específicas que daí decorrem.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A 10 de março de 2026 foi aprovada pela Sra. Ministra da Saúde a Rede de Referenciação Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia. Este documento visa assegurar a resposta hospitalar a situações clínicas de ginecologia e obstétrica, reconhecendo a necessidade de assegurar a adequada orientação de situações clínicas específicas da mulher. Para a sua elaboração, foram tomados em consideração os normativos em vigor aplicáveis, bem como as contribuições da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Enfermeiros. Foi incorporada na proposta a informação sobre acessibilidade aos cuidados de saúde urgentes e emergentes disponibilizada pela Entidade Reguladora da Saúde. Foram igualmente consultados os Consensos de Ginecologia Oncológica da Sociedade Portuguesa de Ginecologia de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na construção de uma rede nacional de Referenciação Hospitalar de Obstetrícia e Ginecologia, a área da patologia oncológica assume particular relevância, face à tendência crescente da taxa de mortalidade por tumores malignos nos últimos 30 anos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No domínio oncológico, existem patologias exclusivamente femininas, que exigem abordagens altamente especializadas e investimento contínuo em prevenção, diagnóstico e tratamento. Contudo, as mulheres enfrentam determinantes e riscos específicos — não apenas biológicos, mas também sociais, económicos e culturais — que requerem políticas de saúde diferenciadas e equitativas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tomemos o exemplo do cancro do ovário, patologia exclusiva do sexo feminino. Progride de forma silenciosa, com sintomas inespecíficos e muitas vezes atribuídos a outras. Muitas vezes, quando diagnosticado, o tumor já se encontra em fase avançada, com impacto profundo na vida da mulher e potencialmente fatal.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Políticas de educação e literacia em saúde que promovam a atenção aos sintomas de alerta, a redução de fatores de risco e o reforço de fatores protetores podem ter um impacto significativo no curso da doença.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta patologia oncológica, como em muitas outras, a referenciação atempada para centros de referência, o investimento no estudo adequado da doença — imagiológico, anatomo-patológico ou genético — o acesso a cirurgia diferenciada, a possibilidade de terapêuticas sistémicos adequadas, como a quimioterapia, inibidores da PARP, anti-angiogénicos, conjugados anticorpo-fármaco, e a participação em ensaio clínicos, determinam o intervalo livre de doença e a sobrevivência.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A atualização da Rede Nacional de Referenciação constitui uma etapa decisiva na construção de melhores cuidados de saúde para a mulher. O sucesso desta estratégia depende agora do envolvimento articulado de todos os agentes relevantes: das próprias doentes, através da promoção da literacia em saúde; dos profissionais de saúde, que devem dispor de formação específica em cancros ginecológicos; e dos decisores políticos, responsáveis por assegurar a alocação dos recursos necessários para tornar esta visão efetivamente exequível. Garantir que esta Rede se traduz em melhores resultados em saúde para as mulheres portuguesas exige compromisso contínuo, consistência na implementação e uma visão partilhada de que investir na saúde da mulher é investir no futuro do país.</p>
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		<title>Parâmetros biométricos placentários: valor clínico e limites das curvas de percentis</title>
		<link>https://myginecologia.pt/opiniao/parametros-biometricos-placentarios-valor-clinico-e-limites-das-curvas-de-percentis/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2026 09:16:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A placenta é frequentemente descrita como o &#8220;arquivo biológico&#8221; da gestação, mas a sua valorização na prática clínica corrente permanece ainda aquém do seu potencial. Num artigo de opinião assinado por Rosete Nogueira, da Escola de Medicina da Universidade do Minho, discute-se a importância da sistematização do peso placentário e do rácio peso ao nascimento/peso [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">A placenta é frequentemente descrita como o &#8220;arquivo biológico&#8221; da gestação, mas a sua valorização na prática clínica corrente permanece ainda aquém do seu potencial. Num artigo de opinião assinado por <strong>Rosete Nogueira</strong>, da Escola de Medicina da Universidade do Minho, discute-se a importância da sistematização do peso placentário e do rácio peso ao nascimento/peso placentário através de novas curvas de percentis ajustadas à idade gestacional. Esta abordagem propõe transformar parâmetros biométricos em ferramentas complementares de diagnóstico, permitindo uma identificação mais precisa de desvios patológicos e uma melhor compreensão da eficiência placentária.</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O artigo propõe um contributo relevante para a Obstetrícia moderna: sistematizar o uso do peso placentário (PW) e do rácio peso ao nascimento/peso placentário (BPWr) através de curvas de percentis ajustadas à idade gestacional. Num contexto em que a placenta é frequentemente subvalorizada na prática clínica, a iniciativa de a colocar no centro da avaliação perinatal merece reconhecimento. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A principal virtude do trabalho reside na tentativa de normalizar parâmetros que, embora conhecidos, são pouco utilizados de forma padronizada. A criação de curvas de percentis permite enquadrar achados individuais num espectro populacional, facilitando a identificação de desvios potencialmente patológicos. Em particular, o BPWr surge como um marcador indireto da eficiência placentária: valores extremos podem refletir tanto perda da capacidade funcional da placenta (placenta relativamente grande para um feto pequeno) como compensações adaptativas ou até condições de crescimento acelerado. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar da padronização, da medição, dos diâmetros e do peso (sem membranas e sem cordão, após lavagem, e fixação em formol tamponado a 10% durante 48h), a utilidade clínica destas curvas deve ser analisada com cautela. Em primeiro lugar, porque a variabilidade biológica da placenta é significativa e influenciada por múltiplos fatores — maternos, fetais e ambientais — que nem sempre são plenamente captados pelas curvas. Outros fatores, como tabagismo, altitude, doenças maternas ou características étnicas – apesar de minimizados pelos critérios de seleção da amostra – podem alterar o peso placentário independentemente de patologia. Assim, apesar da uniformização rigorosa na aquisição dos parâmetros, e seleção da amostra de estudo a aplicabilidade universal das curvas e a sua interpretação isolada podem ficar comprometidas e levar a sobrevalorização de achados sem relevância clínica. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro ponto crítico é a integração destes parâmetros na prática clínica. Embora úteis em estudos retrospetivos e em auditorias perinatais, o seu valor prospetivo ainda é limitado. A tomada de decisão obstétrica continua a depender de um conjunto mais amplo de indicadores, como Doppler fetal, crescimento longitudinal e estado clínico materno. Assim, as curvas de percentis devem vistas como ferramentas complementares, e não como determinantes isolados de conduta. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda assim, o artigo tem mérito ao reforçar a importância da placenta como “arquivo  biológico” da gestação. A incorporação sistemática de dados placentários pode melhorar a compreensão de desfechos adversos e contribuir para estratégias de prevenção em gravidezes futuras. Além disso, abre caminho para investigações que combinem biometria placentária com biomarcadores moleculares e imagiologia avançada. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Em síntese, o trabalho oferece uma base útil para a valorização dos parâmetros placentários, embora a sua aplicação clínica exija contextualização e validação adicional. O desafio futuro será integrar estas curvas em modelos multifatoriais mais robustos, capazes de traduzir a complexidade da interação materno-fetal em decisões clínicas concretas e seguras.</p>



<p class="has-small-font-size wp-block-paragraph">Fotografia: Unilabs</p>
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		<title>Mais do que uma queixa: a urgência de tratar a dor lombar na mulher</title>
		<link>https://myginecologia.pt/opiniao/mais-do-que-uma-queixa-a-urgencia-de-tratar-a-dor-lombar-na-mulher/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Mar 2026 14:12:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A dor lombar afeta dois terços dos adultos, mas o seu impacto físico e emocional é particularmente severo nas mulheres, em quem as queixas são frequentemente subestimadas e interpretadas como problemas de origem &#8220;psicológica&#8221; ou &#8220;nervosa&#8221;. Neste artigo de opinião, João Moreno Morais, ortopedista na ULS Coimbra, desconstrói o estigma do &#8220;mal menor&#8221; e alerta [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A dor lombar afeta dois terços dos adultos, mas o seu impacto físico e emocional é particularmente severo nas mulheres, em quem as queixas são frequentemente subestimadas e interpretadas como problemas de origem &#8220;psicológica&#8221; ou &#8220;nervosa&#8221;. Neste artigo de opinião, <strong>João Moreno Morais</strong>, ortopedista na ULS Coimbra, desconstrói o estigma do &#8220;mal menor&#8221; e alerta para a convergência de fatores biológicos — como a gravidez e a menopausa — e sociais, como a sobrecarga das múltiplas jornadas de trabalho e cuidados. Ao assinalar o Dia da Mulher, defende que o tratamento adequado exige mais do que repouso; requer literacia, fisioterapia e o reconhecimento de que a dor feminina é uma questão de saúde pública que compromete diretamente a autonomia e a qualidade de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dor lombar é muito comum e atinge cerca de dois terços dos adultos em algum momento da vida. Apesar disso, menos de 5% dos casos estão associados a doenças dos discos da coluna. Entre estas, a hérnia discal é a mais conhecida e ocorre quando o material do disco intervertebral se desloca para fora da sua posição habitual, podendo comprimir nervos e causar dor lombar ou ciática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dor pode irradiar para a perna, provocar formigueiro, fraqueza e limitar movimentos simples do dia‑a‑dia. A maioria melhora sem cirurgia, mas o impacto físico e emocional é grande, sobretudo nas mulheres, em quem a doença é frequentemente subestimada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre os 30 e os 50 anos, idade de pico de ocorrência, as mulheres acumulam múltiplas jornadas: trabalho, casa, filhos, pais, responsabilidades que raramente se partilham por igual. Nas profissões fisicamente exigentes como limpezas, indústria, agricultura, lares e hospitais, a carga sobre a coluna é diária. A isso somam‑se fatores biológicos: gravidez, menopausa e alterações hormonais que afetam a força e estabilidade dos tecidos da coluna.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante a gravidez, o corpo adapta‑se para acolher o bebé: aumenta o peso, muda o centro de gravidade, crescem a curvatura lombar e a flexibilidade das articulações. São transformações naturais, necessárias, mas que exigem esforço do sistema músculo‑esquelético. Embora as hérnias discais durante a gestação sejam raras, a dor lombar é quase universal e, em muitos casos, prolonga‑se depois do parto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o avançar da idade, a situação agrava‑se. Estudos mostram que o estreitamento dos discos é mais rápido e acentuado nas mulheres, particularmente após os 70 anos. A diminuição dos estrogénios durante a menopausa acelera o desgaste discal, o que se traduz em mais dor, menos mobilidade e maior limitação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de tudo isto, muitas queixas continuam a ser interpretadas como&nbsp;“psicológicas”. É frequente ouvir que a dor “é do cansaço” ou “é nervoso”. Ora, compreender as causas reais da dor lombar é um passo fundamental para tratá‑la de forma adequada — com avaliação clínica, fisioterapia, exercício orientado e educação sobre o movimento e o corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cirurgia deve ser exceção, reservada a casos em que a dor é incapacitante ou existe compressão neurológica. Para a maioria, a recuperação faz‑se com base em programas conservadores, controlo da dor, fisioterapia, programas de exercício adaptado e educação sobre a condição, regresso gradual à atividade física e atenção à postura e ao equilíbrio muscular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste Dia da&nbsp;Mulher, é tempo de olhar para a dor lombar não como um&nbsp;“mal menor”, mas como um problema de saúde que afeta a autonomia e a qualidade de vida de milhões de mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para mais informações, consulte o <em><a href="https://olhepelassuascostas.pt/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">website </a></em>da campanha &#8220;Olhe pelas suas Costas&#8221;.</p>
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		<item>
		<title>Dia Internacional de Consciencialização sobre o HPV: da prevenção à eliminação</title>
		<link>https://myginecologia.pt/opiniao/dia-internacional-de-consciencializacao-sobre-o-hpv-da-prevencao-a-eliminacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Joana Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 17:20:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;A questão já não é se a vacina funciona, mas garantir que chega a todos.&#8221; É desta forma que Rita Sousa assinala o Dia Internacional da Consciencialização sobre o HPV, lembrando que este vírus contacta com 85% das pessoas sexualmente ativas. A diretora do Serviço de Ginecologia do IPO de Coimbra, através de um artigo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A questão já não é se a vacina funciona, mas garantir que chega a todos.&#8221; É desta forma que <strong>Rita Sousa </strong>assinala o Dia Internacional da Consciencialização sobre o HPV, lembrando que este vírus contacta com 85% das pessoas sexualmente ativas. A diretora do Serviço de Ginecologia do IPO de Coimbra, através de um artigo de opinião, apela à responsabilidade coletiva para proteger tanto raparigas como rapazes, reforçando que Portugal é um exemplo mundial na vacinação, mas que o sucesso futuro depende de uma estratégia integrada que une a imunização ao rastreio indispensável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No dia 4 de março assinala-se o Dia Internacional da Consciencialização sobre o HPV (vírus do papiloma humano). Mais do que uma data simbólica, esta efeméride reforça uma mensagem central: hoje dispomos de uma ferramenta segura e altamente eficaz capaz de prevenir vários tipos de cancro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O HPV é a infeção sexualmente transmissível mais frequente a nível mundial. Estima-se que cerca de 85% das pessoas sexualmente ativas contactem com o vírus ao longo da vida. Embora muitas infeções sejam transitórias e assintomáticas, a persistência de genótipos de alto risco está associada ao desenvolvimento de neoplasias. O vírus é responsável por virtualmente todos os casos de cancro do colo do útero (CCU) e está implicado em cerca de 84% dos cancros do ânus, 70% da vagina, cerca de 40% da vulva, quase metade dos cancros do pénis e&nbsp; numa proporção crescente dos cancros da cabeça e pescoço.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O cancro do colo do útero continua a representar um problema relevante de saúde pública. Em muitos casos, é diagnosticado em estádios avançados, associados a tratamentos mais agressivos e a uma mortalidade significativa. Esta realidade torna ainda mais evidente a importância de prevenção primária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante décadas, o controlo da doença baseou-se essencialmente no rastreio, permitindo identificar e tratar lesões pré-malignas antes da progressão para cancro. O rastreio continua a ser indispensável. Contudo, a vacinação contra o HPV alterou de forma estrutural o paradigma da prevenção, ao atuar a montante do processo de carcinogénese, prevenindo a própria infeção que está na origem da doença. Atualmente, a vacina utilizada em Portugal é a nonavalente que protege contra os principais genótipos de alto risco, incluindo os tipos 16 e 18,&nbsp; responsáveis pela maioria dos casos de cancro do colo do útero,&nbsp; bem como os tipos 6 e 11, de baixo risco, associados aos condilomas anogenitais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A evidência acumulada é robusta, com reduções expressivas na prevalência de infeção por HPV de alto risco, nas lesões pré-cancerosas e, mais recentemente, na incidência de CCU em populações com elevada cobertura vacinal. Na Suécia, a vacinação antes dos 17 anos reduziu em 88% o risco de CCU. No Reino Unido, mulheres vacinadas aos 12-13 anos apresentaram uma redução de 87% do risco de CCU e superior a 90% nas lesões pré-malignas. Em vários países europeus, a redução nas coortes vacinadas precocemente situa-se entre 80% e 90%. Quanto mais precoce a vacinação, maior o benefício.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O impacto estende-se também ao sexo masculino, com reduções significativas de cancros associados ao HPV, incluindo da cabeça e pescoço. A vacinação universal protege indivíduos e reduz a circulação do vírus na comunidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portugal tem sido apontado como um exemplo positivo neste domínio. A inclusão da vacina no Programa Nacional de Vacinação e a sua disponibilização gratuita permitiram alcançar elevadas taxas de cobertura: cerca de 90% das raparigas estão vacinadas até aos 15 anos. Em 2020 a vacinação foi alargada ao sexo masculino, sendo atualmente administrada aos 10 anos de idade, reforçando a estratégia de proteção universal .</p>



<p class="wp-block-paragraph">A nível global, o cenário é menos homogéneo. Apenas cerca de 55–60% das raparigas no mundo receberam pelo menos uma dose da vacina, ainda distante da meta de 90% definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para 2030. A estratégia internacional é clara: 90% de raparigas vacinadas até aos 15 anos, 70% de mulheres rastreadas aos 35 e 45 anos e 90% das mulheres com lesões tratadas adequadamente. Países que combinam estes três pilares aproximam-se da eliminação do CCU como problema de saúde pública, um objetivo que há poucas décadas parecia inalcançável.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Persistem desafios. É necessário manter coberturas elevadas, garantir equidade no acesso, reforçar a literacia em saúde e combater a desinformação. A segurança da vacina contra o HPV está amplamente documentada, com um perfil de efeitos adversos maioritariamente ligeiros e autolimitados e milhões de doses administradas em todo o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Importa sublinhar que a vacinação não elimina a necessidade de rastreio. A prevenção do CCU assenta numa estratégia integrada: vacinação precoce, rastreio organizado e tratamento adequado das lesões identificadas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a direção é clara. A vacinação contra o HPV é uma das intervenções preventivas com maior impacto em oncologia nas últimas décadas. A questão já não é se a vacina funciona. A questão é garantir que chega a todos, e que a oportunidade histórica de eliminar um cancro se transforma numa realidade sustentada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assinalar o Dia Internacional de Consciencialização sobre o HPV é reafirmar uma responsabilidade coletiva. Dispomos de conhecimento científico, de ferramentas eficazes e de resultados concretos na prevenção do CCU e de outros cancros associados ao HPV. Cabe-nos garantir que esta oportunidade se traduz, de forma sustentada, na redução real de um cancro que pode &#8211; e deve &#8211; deixar de marcar o futuro das próximas gerações.</p>
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		<title>Quebrar o ciclo do inverno demográfico: o potencial da PMA em Portugal</title>
		<link>https://myginecologia.pt/opiniao/quebrar-o-ciclo-do-inverno-demografico-o-potencial-da-pma-em-portugal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luis Paiva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2025 11:01:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Miguel Raimundo, médico especialista em Ginecologia e Obstetrícia, reflete sobre questões relacionadas com a saúde reprodutiva e o papel da Medicina. A partir da sua experiência profissional, partilha a sua opinião sobre um tema atual, chamando a atenção para a importância de uma abordagem informada e responsável. Portugal vive um inverno demográfico profundo, marcado por [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Miguel Raimundo</strong>, médico especialista em Ginecologia e Obstetrícia, reflete sobre questões relacionadas com a saúde reprodutiva e o papel da Medicina. A partir da sua experiência profissional, partilha a sua opinião sobre um tema atual, chamando a atenção para a importância de uma abordagem informada e responsável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portugal vive um inverno demográfico profundo, marcado por uma natalidade persistentemente baixa e um envelhecimento sem precedentes. O país envelhece a um ritmo acelerado, com a população idosa quase a duplicar a jovem (23,4% <em>versus </em>12,9%, em 2022) (Polígrafo, citando dados do INE). Desde os anos 80 que o Índice Sintético de Fecundidade (ISF) permanece muito abaixo dos 2,1 filhos por mulher necessários à substituição de gerações, tendo descido de 2,25 em 1980 (INE) para apenas 1,44 em 2023 (INE). O saldo natural é negativo, sendo apenas a imigração a travar uma redução ainda mais drástica da população residente (INE).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É neste contexto crítico que a Procriação Medicamente Assistida surge como um dos poucos instrumentos capazes de mitigar, ainda que parcialmente, a quebra da natalidade. Em 2022, 4,4% de todos os bebés nascidos no país resultaram de tratamentos de PMA, num total de 3 673 recém-nascidos (CNPMA,&nbsp;<em>HealthNews</em>&nbsp;e RTP). Este valor, muito superior aos 2,9% registados em 2015 (CIJ), demonstra que a PMA já ocupa um lugar demográfico relevante.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O aumento do recurso à PMA reflete também a subida da infertilidade, uma condição que afeta entre 15% e 20% das pessoas em idade reprodutiva (APF). Mas o principal fator que explica esta dependência crescente é o adiamento da maternidade. Muitas mulheres tentam engravidar mais tarde devido à instabilidade laboral, aos elevados custos da habitação e à falta de apoios, condições que moldam decisivamente o calendário reprodutivo.<strong> </strong>Este adiamento não é um capricho social; é uma inevitabilidade resultante do contexto económico e familiar contemporâneo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A realidade científica reforça esta tendência. A fertilidade feminina diminui significativamente com a idade. A probabilidade mensal de engravidar baixa dos 25% até aos 30 anos para valores entre 5 e 10% aos 40, tornando-se inferior a 1% depois dos 45 anos (CIJ e CNPMA). Numa sociedade que tem filhos cada vez mais tarde, é natural que o recurso à PMA aumente. Quanto mais tarde se tenta engravidar, menor é a probabilidade de sucesso natural, aumentando a necessidade de apoio médico e reforçando o impacto demográfico deste fenómeno.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">À medida que a fecundidade natural desce e a idade da maternidade sobe, cresce também a distância entre o número de filhos desejados e os efetivamente tidos. A PMA reduz esta distância ao transformar desejos reprodutivos em nascimentos reais.&nbsp;Num país onde a maioria das pessoas manifesta o desejo de ter dois filhos (Público), a possibilidade de recuperar nascimentos que&nbsp;de outra forma não ocorreriam,&nbsp;assume uma importância particularmente significativa.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos últimos anos, Portugal tem registado menos de 85&nbsp;mil nascimentos anuais, um valor muito inferior ao necessário para estabilizar a população&nbsp;(FFMS). Cada ciclo de PMA bem-sucedido representa não apenas um sucesso clínico, mas um contributo direto para contrariar o estreitamento da base da pirâmide etária. Sem a PMA, a natalidade seria ainda mais baixa e o país avançaria num processo de declínio populacional ainda mais rápido.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A importância da PMA é também evidente quando analisamos o saldo natural, pois Portugal regista há vários anos mais óbitos do que nascimentos (INE). A PMA funciona como um mecanismo de compensação parcial. Não reverte o saldo negativo, mas impede que este se aprofunde numa fase em que a população em idade fértil diminui e o número de mulheres com mais de 40 anos aumenta.&nbsp;Nestas condições, a medicina reprodutiva deixa de ter apenas um papel clínico e passa a ser um elemento essencial na manutenção da dinâmica demográfica do país.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A PMA contribui igualmente para preservar a ideia de renovação geracional num momento em que o país se aproxima de um patamar crítico de envelhecimento. À medida que a proporção de jovens diminui, o peso relativo de cada nascimento aumenta, um bebé nascido por PMA é uma vitória médica e um reforço demográfico num país onde cada criança conta, sobretudo quando se registam tão poucos nascimentos naturais.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar do seu impacto, a PMA não é suficiente para inverter o inverno demográfico. A tendência global confirma esta realidade: apenas 49 países deverão manter, dentro de 24 anos, um índice de fecundidade capaz de assegurar a substituição de gerações, segundo o estudo publicado na revista&nbsp;<em>The&nbsp;Lancet*</em>. Contudo, a PMA permanece um instrumento indispensável num contexto de declínio prolongado da natalidade, pois permite que quem deseja ter&nbsp;filhos,&nbsp;mas enfrenta limitações biológicas ou circunstanciais concretize esse objetivo antes que seja tarde demais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Num país onde o envelhecimento progride mais rapidamente do que as respostas estruturais, a PMA emerge como um dos poucos mecanismos imediatos de reforço demográfico. Não substitui políticas sociais, mas evita uma redução ainda maior do número de nascimentos; não resolve o inverno demográfico, mas abranda a sua velocidade. E num cenário em que cada geração é menor do que a anterior, abrandar o declínio já representa um avanço importante para o futuro coletivo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça melhor o trabalho de Miguel Raimundo <a href="https://miguelraimundo.pt/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui</a>.&nbsp;</p>



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		<title>Avaliação e tratamento pós-menopáusico</title>
		<link>https://myginecologia.pt/opiniao/avaliacao-e-tratamento-pos-menopausico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luis Paiva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2025 10:46:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Patrícia Afonso-Mendes, Assistente Hospitalar de Medicina Interna na ULS Coimbra, esteve presente no 33.º Congresso Português de Aterosclerose, onde foi oradora sobre o tema  ‘’Avaliação e tratamento pós-menopáusico, será tarde demais?’’, na mesa conjunta ‘’Prevenção da doença cardiovascular nas mulheres’’, em que foram abordados outros temas como a avaliação e tratamento da mulher pré-menopáusica e [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Patrícia Afonso-Mendes</strong>, Assistente Hospitalar de Medicina Interna na ULS Coimbra, esteve presente no 33.º Congresso Português de Aterosclerose, onde foi oradora sobre o tema  ‘’Avaliação e tratamento pós-menopáusico, será tarde demais?’’, na mesa conjunta ‘’Prevenção da doença cardiovascular nas mulheres’’, em que foram abordados outros temas como a avaliação e tratamento da mulher pré-menopáusica e o impacto das complicações obstétricas no risco cardiovascular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Historicamente, o risco de doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA) nas mulheres atrasa em média 10 anos em relação aos homens, atribuído à proteção estrogénica pré-menopáusica. Contudo, a transição menopáusica (intervalo de um ano antes e um ano depois do período menstrual final) é identificada como uma janela crítica de vulnerabilidade, período no qual a perda hormonal impulsiona uma aceleração significativa do risco de DCVA, para além do envelhecimento cronológico. Será a avaliação e tratamento na pós-menopausa efetivamente tarde demais?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O período de um ano antes e um ano depois do período menstrual final (PMF) é um intervalo crítico de alterações funcionais vasculares. Dados do <em>SWAN Heart Study</em> mostram que o aumento da rigidez arterial central (avaliada pela velocidade da onda de pulso carótido-femoral), um preditor independente de risco cardiovascular, é significativamente maior precisamente neste intervalo de um ano do PMF (7,5% de variação percentual anual). Este aumento é independente do envelhecimento cronológico. A diminuição do estrogénio também induz um perfil lipídico aterogénico. O colesterol total, C-LDL e apolipoproteína B aumentam dramaticamente em torno do PMF, de forma independente do envelhecimento. Observa-se ainda que o C-HDL se torna disfuncional, perdendo a sua associação cardioprotetora consistente após a menopausa.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É ainda de extrema importância identificar fatores de risco-amplificadores específicos do sexo feminino, que amplificam o risco de DCVA. Estes incluem a menopausa precoce (&lt;45 anos), insuficiência ovárica prematura (&lt;40 anos) e a presença de sintomas vasomotores graves. A aterosclerose subclínica e a baixa densidade mineral óssea podem também partilhar vias patológicas comuns.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para refinar a estratificação no risco intermédio, onde a avaliação tradicional tende a subestimar o risco, é recomendado o <em>score </em>de cálcio coronário (CAC) também no género feminino. Também importante neste período da mulher é o impacto de determinadas terapêuticas.<br>A terapêutica hormonal de substituição não é recomendada para a prevenção primária ou secundária de DCVA. O seu impacto na DCVA está intimamente ligado à “hipótese do <em>timing</em>” e eventualmente à formulação usada. Existe ainda o problema do subtratamento, tendo as mulheres uma probabilidade significativamente menor de atingir as metas de LDL-C do que os homens.<br><br>Novas terapêuticas hipolipemiantes, como o ácido bempedóico, demonstraram em estudos que as mulheres apresentam reduções significativamente maiores de  C-LDL do que os homens, e os inibidores de PCSK9 mostram eficácia e segurança comparáveis. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A mensagem final é inequívoca: “Não é tarde demais, mas a janela fecha rápido”. Deve-se atuar agressivamente na transição menopáusica, identificando-a e ponderando ainda o rastreio de aterosclerose subclínica para reclassificar o risco e combater o subtratamento, especialmente em mulheres com fatores de risco amplificadores.</p>
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		<title>Avaliação e tratamento da mulher pré-menopáusica</title>
		<link>https://myginecologia.pt/opiniao/avaliacao-e-tratamento-da-mulher-pre-menopausica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luis Paiva]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2025 10:43:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No 33.º Congresso Português de Aterosclerose, Sílvia Monteiro, diretora do Serviço de Humanização da ULS Coimbra, abordou o tema ‘’Avaliação e tratamento da mulher pré-menopáusica, quanto valem as hormonas?’’ numa sessão que tratou a prevenção da doença cardiovascular na mulher. A especialista sublinhou a subvalorização do risco cardíaco feminino, os fatores específicos que afetam as [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">No 33.º Congresso Português de Aterosclerose, <strong>Sílvia Monteiro</strong>, diretora do Serviço de Humanização da ULS Coimbra, abordou o tema ‘’Avaliação e tratamento da mulher pré-menopáusica, quanto valem as hormonas?’’ numa sessão que tratou a prevenção da doença cardiovascular na mulher. A especialista sublinhou a subvalorização do risco cardíaco feminino, os fatores específicos que afetam as mulheres e porque é essencial reforçar a prevenção ao longo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A doença cardiovascular (DCV) constitui a principal causa de morte na mulher, estimando-se que uma em cada três mulheres morre por enfarte agudo do miocárdio (EAM) ou acidente vascular cerebral (AVC). A incidência de doença aterosclerótica aumenta de forma dramática na mulher de meia-idade, particularmente no período de transição para a menopausa, considerado como um tempo de risco cardiovascular (CV) acelerado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Está estabelecido que a manifestação da DCV na mulher é diferida em cerca de 10 anos em comparação com o homem. Contudo, nos últimos anos, tem-se verificado um aumento crescente da incidência de EAM em mulheres jovens, em provável relação com a epidemia da obesidade e aumento da prevalência dos fatores de risco cardiovascular (FRCV) associados.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estudo WAMIF, publicado no final de 2024, incluiu 324 mulheres que sofreram um EAM antes dos 50 anos, internadas em 30 hospitais franceses entre 2017 e 2019, mostrou uma elevada prevalência de FRCV: 75% tabagismo, 28% obesidade, 26% HTA, 26% dislipidemia, 35% história familiar de DCV prematura, 31% complicações na gravidez, 36% toma de contracetivos orais combinados e 50% stress emocional recente. A maior parte destes FRCV não tinha sido previamente identificada e tratada. Na verdade, o risco CV na mulher não tem sido adequadamente valorizado pela comunidade médica, pela sociedade e pela própria mulher. Para uma estratificação de risco CV eficiente é fundamental a identificação de todos os FRCV clássicos e FRCV exclusivos da mulher, nomeadamente fatores hormonais (menopausa prematura &lt;40 anos, uso de terapêutica hormonal, síndrome do ovário poliquístico), complicações associadas à gravidez (distúrbios hipertensivos, diabetes gestacional, parto pré-termo, interrupção da gravidez e restrição do crescimento intrauterino), doenças autoimunes (lúpus eritematoso sistémico e artrite reumatoide), terapêuticas associadas ao cancro (radioterapia da parede torácica e cardiotoxicidade associada à quimioterapia), determinantes sociais (educação e nível socio-económico) e fatores de risco psicológico (ansiedade, depressão e solidão). A 1.ª avaliação do perfil de RCV deve ser feita no início da idade adulta, por volta dos 18-20 anos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, nos casos de síndrome do ovário poliquístico, suspeita de hipercolesterolemia familiar ou DCV prematura, a avaliação deve ser feita mais cedo, mesmo durante a infância.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A avaliação pré-concepcional ou o início da gravidez constituem uma oportunidade única para a avaliação do RCV, numa fase em que a mulher está mais sensível e motivada para adotar um estilo de vida saudável. Da mesma forma, a fase de transição para a menopausa deve ser encarada como uma janela crítica para a implementação de estratégias de intervenção precoce para reduzir o risco CV.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para promover a saúde CV da mulher é fundamental investir em programas de literacia, defender a proteção CV da mulher como uma prioridade de Saúde Pública e construir um mundo mais inclusivo, onde cada mulher, em todas as fases da sua vida, possa beneficiar dos melhores cuidados de saúde preventiva e curativa.</p>
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